Foto real de sempre-viva (Paepalanthus), flor símbolo dos campos rupestres, fotografada na Serra do Cipó, Minas Gerais (foto: Rafael Rodrigues Camargo, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0)
Guia de campo · Serra do Cipó

Sempre-vivas na Serra do Cipó

Nos campos rupestres acima de 900 metros de altitude da Serra do Cipó cresce uma flor que continua com a cor e a forma quase intactas muito tempo depois de cortada — e que virou um dos símbolos botânicos mais conhecidos da região.

Nos campos rupestres acima de 900 metros de altitude da Serra do Cipó cresce uma flor que continua com a cor e a forma quase intactas muito tempo depois de cortada — e que virou um dos símbolos botânicos mais conhecidos da região.

As sempre-vivas não são uma única espécie, mas o nome popular dado a um grupo de plantas da família Eriocaulaceae, principalmente do gênero Paepalanthus — um dos símbolos botânicos mais associados à paisagem da Serra do Cipó. Elas crescem nos campos rupestres, o tipo de vegetação rasteira sobre solo rochoso e arenoso que domina a paisagem da região acima de 900 metros de altitude, faixa que cobre a maior parte do Parque Nacional da Serra do Cipó e da APA Morro da Pedreira ao redor dele.

O nome "sempre-viva" vem de uma característica real da planta: as inflorescências têm brácteas secas e papiráceas que não murcham nem perdem a forma quando a planta é cortada e desidratada, ao contrário da maioria das flores. É essa textura que permite que um arranjo de sempre-vivas mantenha cor e formato por anos, sem cuidado especial — a base do que, no mercado de flores, se chama de "flor eterna" ou "everlasting flower", uma categoria que existe em vários países, mas que no Brasil tem nas sempre-vivas do Espinhaço sua expressão mais conhecida.

Quem já caminhou por trilhas da região em trechos mais abertos e rochosos — como partes do percurso até a Cachoeira Grande ou do Complexo de Congonhas — provavelmente já cruzou com touceiras de sempre-viva sem reconhecer: fora da época de floração mais vistosa, a planta se confunde com o capim seco ao redor até que alguém pare e observe de perto.

Como boa parte da flora dos campos rupestres, as sempre-vivas acompanham o ritmo da estação seca da região, entre abril e setembro: é nessa janela que as inflorescências amadurecem por completo e ganham a textura firme e seca que dá nome à planta — a mesma época, aliás, que costuma render os melhores dias de trilha na Serra do Cipó, com solo firme e céu mais limpo para observar a paisagem de perto.

A colheita de sempre-vivas tem uma história longa na Serra do Espinhaço, a cadeia de montanhas que inclui a Serra do Cipó e se estende por boa parte de Minas Gerais. Por gerações, famílias do entorno das serras — sobretudo mulheres, tradicionalmente chamadas de apanhadoras de flores — sustentaram parte da renda colhendo sempre-vivas nos campos rupestres para vender secas, em arranjos e para o artesanato local, uma atividade que virou parte da identidade cultural de comunidades rurais da região.

O problema é que a demanda por sempre-vivas cresceu muito além do que a colheita tradicional conseguia sustentar, com extração em escala maior ameaçando populações silvestres de algumas espécies. Como resposta, a colheita de sempre-vivas é hoje proibida dentro de unidades de conservação de proteção integral, caso do Parque Nacional da Serra do Cipó — onde, por lei, a extração de qualquer planta nativa não é permitida, esteja ela ameaçada ou não.

Essa proibição não elimina o extrativismo, que segue acontecendo fora dos limites do parque, no entorno da Serra do Cipó e em outras áreas da Serra do Espinhaço, e ainda gera tensão entre comunidades que dependem da atividade havia gerações e os órgãos ambientais responsáveis por proteger a flora nativa. É um conflito sem solução simples: de um lado, a urgência de preservar espécies de distribuição restrita aos campos rupestres; do outro, uma atividade econômica que sustenta famílias inteiras nas cidades ao redor do parque.

Nos últimos anos, cooperativas e associações de apanhadoras de flores em municípios da região do Espinhaço vêm trabalhando para tornar essa colheita mais sustentável — negociando áreas de manejo fora das unidades de proteção integral e cotas de extração que permitam que as populações de sempre-viva se recuperem entre uma safra e outra. É um equilíbrio ainda em construção, mas que já muda a forma como parte do artesanato de sempre-viva chega ao mercado hoje.

Para quem visita a Serra do Cipó, a regra prática é simples: apreciar e fotografar as sempre-vivas nas trilhas, sem colher nenhuma planta — dentro do Parque Nacional isso é proibido por lei, além de contribuir para a pressão sobre populações silvestres já fragilizadas. Quem quiser levar um arranjo de sempre-viva de lembrança faz melhor comprando de artesãos e cooperativas locais que declaram a origem da colheita, em vez de vendedores informais sem procedência clara.

As sempre-vivas dividem os campos rupestres da Serra do Cipó com outras espécies igualmente raras e endêmicas — caso da Vellozia gigantea, planta tão rara que ajudou a justificar a criação do próprio Parque Nacional da Serra do Cipó, junto da necessidade de proteger a bacia do Rio Cipó e o alto grau de endemismo da fauna e da flora da região. Uma trilha batizada de Santuário das Vellozias, dedicada a essa espécie, é um dos atrativos mais recentes ligados ao ecoturismo botânico da região.

Essa riqueza vem atraindo também um tipo específico de visitante: ilustradores e aquarelistas botânicos, que organizam expedições de desenho pela Serra do Cipó especificamente para registrar espécies dos campos rupestres, incluindo eventos anuais como a Semana do Cerrado Vivo, geralmente em setembro. Para quem gosta de natureza além da trilha e da cachoeira, essas expedições e o olhar mais devagar que elas propõem são uma forma diferente de conhecer a mesma paisagem.

No fim, as sempre-vivas resumem bem o que torna a Serra do Cipó um destino tão particular: uma biodiversidade densa demais para caber só nas cachoeiras mais fotografadas, e frágil o bastante para exigir cuidado de quem visita. Depois de um dia de trilha reparando nos detalhes dos campos rupestres, vale fechar a noite com calma — os chalés privativos da Mei do Mato Chalés, com deck e vista aberta para a serra, são uma boa base para isso.

Chalé A-frame do Mei do Mato Chalés na Serra do Cipó
⭐ Onde ficar

Mei do Mato Chalés

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